quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

O dono da dor sabe quanto dói?

As dores me acompanham em toda a minha vida adulta. Primeiro, eram atribuídas ao estilo de vida de estudante de Odontologia, estagiária e festeira, que me rendia uma dorzinha no pulso, e pescoço sempre tenso. Depois, as dores advinham de uma vida profissional intensa, três ou mais trabalhos, longas horas de trânsito e ainda viagens, sempre que possível. Nessa época a artrose nas mãos já começava a aparecer e, junto com ela, as visitas a ortopedistas e a reumatologistas. Alguns exames, resultados inconclusivos. Mas, de qualquer forma, pra artrose, não tem remédio. 

Na gravidez senti a lombar, dores nas pernas, pescoço sempre tenso….coisa de grávida? 

Com um bebê então? Incansáveis horas de colo, braços e pescoço sempre sempre doloridos. Volta e meia alguém me dizia que a tia fez um tratamento pra artrose, que tinha um remédio ótimo… e lá voltava eu pro reumato, pra fazer uns exames de imagem e acompanhar a degeneração das cartilagens dos dedos, ainda sem remédio. 

A filha foi crescendo e a rotina ficou mais pesada. Além de muito trabalho fora de casa, ainda tem meu trabalho (preferido) de ser mãe.

A idade vai avançando (atenção aqui, estou falando apenas de 42 anos) e o corpo cansa mais. Fiz algumas escolhas para tentar melhorar a qualidade de vida. Optei por apenas um trabalho, próximo a minha casa, contato com a natureza… menos estresse e menos sobrecarga. Mas e a dor? Não melhorou? 

Volta na reumato pra ver essa artrose e saber que medicamentos, são só aqueles  que não tem comprovação científica. Depois de mais exames, vimos que o fator reumatoide deu alteração (pela primeira vez em uns 15 anos).  Exames mais específicos  para doenças reumáticas seguem inclusivos.

Depois de algumas consultas de acompanhamento, e mais pedidos de exames, a médica sugere um medicamento para dor de origem neuropática. Tomar o remédio ajudaria como critério de exclusão para o possível diagnóstico. Depois de muita conversa com a médica, resolvi tomar o remédio. Na minha cabeça, seria uma perda de tempo, já que a artrose não é neuropática (pra essa, não tem remédio). 

Comecei a tomar o remedinho e em dois dias eu fiz uma descoberta chocante. 

Eu vivi com dor pelos últimos 15 anos (no mínimo)  da minha vida, e achava que era normal. 

O alívio é impressionante. Um dos maiores choques de realidade é que eu sempre acordo e levanto imediatamente da cama e eu achava que era porque eu era uma pessoa muito ativa. Mas descobri que  ficar deitada na cama dói. 

Que ótimo, você pode pensar! Achou a solução. Claro que sou feliz e sou grata por isso, mas está sendo difícil aceitar que vivi uma vida de dor, sem saber. Difícil também aceitar que para viver sem essa dor, preciso tomar um remédio (com vários efeitos colaterais) todos os dias. Ou experimentar vários remédios e várias doses. E difícil também saber, que o remédio serve só pra dor neuropática e não adianta nada pra artrose  (pra essa, continua não tendo remédio).

Escrevo esse relato por mim, como forma de protesto pelos anos de dor.  E pra deixar registrado aqui que nem sempre o dono da dor sabe quanto dói.


Link pra música que inspirou o título da postagem:




"Neologismo ou feminismo?" ou seria "Neologismo sambando na cara do machismo" ?

Rascunho este texto foi iniciado em 26/12/2011:

" Neologismo ou feminismo

Carolina para Presidenta do Brasil!


Se eu fosse eleita Presidente do Brasil, eu seria como a Dilma e me faria chamar de Presidenta.


Não adianta falar que "presidente" é um substantivo de dois gêneros, porque os presidentes brasileiros desde sempre foram de um gênero só. E está pra nascer a pessoa que me faça crer que quando a palavra surgiu tinha o objetivo de ser "unissex". Há pouco tempo mulher nem votava!


De acordo com o professor Pasquale, palavras terminadas em "nte" designam o executor de uma ação e geralmente não varia. Igual o sexo dos presidentes brasileiros. Nunca variou, até 2010. A palavra "presidenta" não existe? Não existia!"

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Atualização 11/12/2024:

Revendo este rascunho que achei no meu blog de 13 anos atrás, preciso registrar atualizações importantes sobre o tema.  A Carolina de 2011 nem imaginava que o debate de hoje seria o "gênero neutro". 

Quem criou essa história de gênero neutro foram pessoas que se consideram "não binárias". Ou seja, pessoas que não se identificam nem com o gênero feminino, nem com o masculino. E, portanto, não se sentem contempladas pela língua portuguesa. Parabéns aos não binários pela coragem de propor uma mudança que eu entendo como natural e necessária. 

Aqui faço uma abordagem bem superficial sobre a proposta desta linguagem neutra inclusiva, com o único objetivo de emitir minha singela opinião. Bom, a proposta da linguagem neutra é criar um gênero neutro, que englobe o masculino, feminino e os não binários. Ou seja, os machões vão todos pro mesmo pacote dos não binários, de toda a comunidade LGBTQIAPN+ e, pasmem, para o mesmo pacote das mulheres, e em pé de igualdade. Sim, querides leitores. Imaginem só, antes se eu quisesse falar de pessoas em geral, o gênero era masculino. "Queridos leitores" englobava mulheres e homens, "os meninos da escola" englobava meninos e meninas, e até o "homo sapiens" (homem sábio- do latim)  é a espécie que englobava homem e mulher.

Eu vivi pra ver esse dia. Alguém colocar os homens no mesmo pacote das mulheres. Das pessoas LGBTQIAPN+ então, nem se fala. 

Hoje eu mudaria o título desse texto para "Neologismo sambando na cara do machismo".

A linguagem neutra tem meu apoio e seus usuários tem meu respeito e admiração. Ainda não consigo aplicá-la na prática do dia-a-dia, pois é uma grande transformação linguística e, infelizmente, não é socialmente aceita. 

No momento, fico aguardando as mudanças da nossa língua portuguesa de machista para neutra, e pensando qual será o debate daqui a 13 anos.  

*Este blog é democrático e comentários pró linguagem neutra e contra são muito bem vindos. Entretanto, argumentos de pessoas que são contra mudanças na língua portuguesa serão aceitos apenas se escritos na forma gramatical instituída em 1536, por Fernão de Oliveira, na publicação "A Grammatica da lingoagem Portuguesa".